COLOMBIA: RISCOS COM ENTREGA DE DOCUMENTOS PARA COMISSÃO DA VERDADE
 

 
De Roux pensa que a Colômbia se prestará a um ato de suicídio institucional e militar?


 


Eduardo Mackenzie


 


Se o presidente Juan Manuel Santos não só aprovar mas obrigar o ministro da Defesa a entregar a documentação militar classificada que lhe está pedindo de maneira secreta o chefe da chamada "comissão da verdade", desde 13 de junho passado, os cidadãos teremos que contemplar a derrubada inexorável a curto prazo de um pilar essencial do Estado colombiano.


Aprovar tal traslado equivale a dar o passo mais cínico e contundente, pior ainda que a assinatura dos pactos de Havana, para a destruição das Forças Armadas da Colômbia.


Tal pedido ocorre em uma conjuntura muito crítica: no momento final do mandato de Santos, quando a violência narco-subversiva aumenta nas regiões agrárias da Colômbia e enquanto a ditadura chavista na Venezuela ameaça bombardear a Colômbia com aviões de combate russo.


Tal é o contexto real das exigências que Francisco de Roux está fazendo ao ministro da Defesa, Luis Carlos Villegas.


Se o chefe do executivo ceder ante essa pressão, ele mesmo terá consolidado as condições para que se lhe abra um processo de destituição, antes mesmo de 7 de agosto próximo, ou de um julgamento por traição depois dessa data. Há dois dias, o ex-presidente Andrés Pastrana havia declarado: "Depois das revelações de @VickyDavilaH e a @WRadioColombia não há dúvida de que o Congresso deve iniciar o julgamento contra @JuanManSantos para decretar perda do cargo por indignidade política". Com a entrega dos arquivos estratégicos do país a um terceiro, Santos incorre no delito descrito pelo Artigo 97 da Constituição colombiana. Disso não pode restar dúvida.


Essa entrega de documentação especial e confidencial do Estado e de suas Forças Armadas, seria um ato de flagrante violação da soberania nacional e um ato de destruição das forças de defesa e de segurança da Colômbia. Seria um ato violatório da Constituição colombiana, em especial dos Artigos 97, 188, 189, parágrafos 3 e 6, 212 e 217.


O que Francisco de Roux pede é uma impossibilidade moral e política. Um país decidido a preservar sua estabilidade social, política e militar o rechaçaria.


Explorando sua qualidade de chefe da "comissão da verdade", De Roux pretende se apoderar nada menos que de todos os arquivos de inteligência e contrainteligência das Forças Armadas do país (Exército, Força Aérea, Aramada e Polícia) desde 1953 até hoje. Em sua carta de seis páginas, De Roux detalha em 40 pontos o que quer. Nenhum tema sensível fica de fora: toda a atividade das forças de defesa e segurança do país, as atividades abertas e secretas, as atividades de luta anti-subversiva e contra o narco-tráfico, do passado e do presente e até as que estejam em curso, teriam que aparecer nessa montanha de documentos pedidos. Milhares de pessoas, civis, militares, policiais, funcionários do Estado e suas famílias, ficariam expostas e em perigo se essa documentação cair nessas mãos. Só o enunciado da documentação que De Roux pede já é uma ata de acusação velada: ele quer documentação sobre "as violações aos direitos humanos, infrações ao Direito Internacional Humanitário", cometidos, segundo ele, pelo Estado e as Forças Armadas.


Embora seja o chefe dos jesuítas na Colômbia e o dirigente de uma "comissão da verdade", Francisco de Roux não oferece as garantias para se arrogar sequer o direito a fazer uma petição desse alcance.


Desde há mais de 20 anos Francisco de Roux é conhecido na Colômbia por seu ativismo político de extrema esquerda e pró-guerrilheiro. Ninguém o calunia ao dizer isso. Ele mesmo, Francisco de Roux, exibe sem temor algum sua admiração pelo ELN e pelos chefes desse bando criminoso, sobretudo por Pablo Beltrán e por "Gabino". Em um conversatório de 28 de abril de 2017, o chefe da "comissão da verdade" declarou: "Tenho uma verdadeira admiração por Pablo Beltrán". E reiterou: "As proposições do ELN são muito do que os colombianos queremos".


Essa é a pessoa que quer que lhe entreguem, em suportes numéricos e em papel, em "conteiners", toneladas de documentos militares de uso exclusivo das Forças Armadas da Colômbia. Ele quer conhecer os "meios e métodos utilizados" contra as guerrilhas e contra os narco-traficantes, as "estratégias de controle territorial", as relações das forças da ordem com "as comunidades e distintos setores sociais", os currículos do pessoal de inteligência e contrainteligência e o nome, por exemplo, dos heróis da Operação Cheque [1]. Tudo isso para quê? Para fazer hinos à paz? Ou para falsificar processos?


No final de sua carta ao ministro Villegas, Francisco de Roux adverte que "não pode haver reservas, restrições ou classificações para o acesso" aos arquivos requeridos. De Roux pretende que sua "comissão" esteja acima da Constituição e da Lei. Tal é o alcance do que o conhecido ativista político Francisco de Roux pede.


Nenhum país do mundo acedeu a entregar esse tipo de arquivos. Na Guatemala, uma "comissão de paz" sob o controle dos castristas, também tentou se apoderar dessa informação, mas os militares rechaçaram a entrega do menor documento.


O senhor De Roux pensa que a Colômbia será o único país do mundo que se prestará a esse ato de suicídio institucional e militar?


Esse personagem declarou publicamente sua admiração pelos chefes do ELN, organização que está hoje em dia em plena guerra contra o Estado e a sociedade colombiana. Entregar a documentação que pede não equivale a entregá-la, embora ele mesmo não queira, a inimigos do Estado, ao ELN, às FARC e, sobretudo, aos chefes internacionais desses bandos criminosos, os serviços de inteligência militar de Cuba, Venezuela e Nicarágua?


O que pede o ativista Francisco de Roux, com o pretexto de que essa informação deva fazer parte dos arquivos que permitirão saber o que aconteceu "nesse anos de conflito", e para "passar bem a página", foi precedida de um pedido não menos suspeito da JEP (Justiça Especial de Paz, outro engendro de Havana), em março passado: os arquivos secretos do ex-DAS, embora esses arquivos não façam parte de processo judicial algum.


Esses pedidos de arquivos altamente confidenciais do Estado mostram que, tanto a JEP quanto a "comissão da verdade", perseguem objetivos muito distintos dos que proclamam em sua propaganda. Tais pedidos são atos destinados a minar a soberania nacional colombiana.


Francisco de Roux não teve sequer o cuidado de pedir - para preservar ao menos a aparência de um certo equilíbrio de intenções -, ao Partido Comunista, às FARC (partido e unidades armadas), aos ex-militantes do M-19, ao ELN, EPL, às Bacrim e aos demais atores da guerra subversiva, dissolvidos ou em atividades, que lhe entreguem a totalidade de seus arquivos de inteligência e contrainteligência, seus textos de doutrina para-militar, seus manuais de operações, suas listas de assaltos, emboscadas, vítimas, baixas e "danos colaterais" (como diz De Roux), suas listas de seqüestros, de seus reféns, de seus campos minados em regiões e povoados, e todos os outros detalhes das atividades terroristas, nas cidades e no campo, e suas redes de tráficos de drogas desde 1953 até hoje.


A uma pergunta sobre esse ponto específico, feita ontem por Caracol Radio, o chefe jesuíta respondeu enigmaticamente: "Estamos a fundo nessa direção" e "nos dirigimos a eles". Isso é tudo. Quer dizer: ele não fez nada nesse sentido. Quem pode crer que ele fez tal exigência aos atores subversivos nos termos extremos que emprega ante o Estado colombiano? Se o fez, que o prove. E que responda a esta pergunta: Por que uma comissão "da verdade" opera de maneira tão mentirosa e unilateral?


Francisco de Roux sabe muito bem que os arquivos do PCC (Partido Comunista Colombiano) e das FARC não estão na Colômbia. O Kremlin ordenava o traslado para Moscou da documentação mais secreta dos partidos comunistas e de seus braços armados. Esses arquivos continuam nessa cidade, porém não são consultáveis. Os das outras organizações armadas castristas devem estar em algum lugar de Cuba. De quem De Roux zomba quando dá a entender que obterá documentação oficial dessas forças?


É preciso protestar e exigir que os arquivos militares, de inteligência e contrainteligência militar da Colômbia que o sacerdote Francisco de Roux pede, sejam protegidos e não caiam nas mãos de terceiros.


Nota da tradutora:


[1] Operação quase cinematográfica e plenamente exitosa, que resgatou 15 reféns das mãos das FARC sem disparar um só tiro, onde se encontravam seqüestrados os três funcionários norte-americanos, incontáveis militares e policiais, e a então candidata à presidência da República Ingrid Betancourt, em 2 de julho de 2008. Foi graças ao trabalho de inteligência minucioso e ultra-secreto que esses reféns puderam ser resgatados do cativeiro e campo de concentração das FARC, onde alguns se encontravam há 12 anos cativos.


Tradução: Graça Salgueiro