BITCOINS E OUTRAS MOEDAS VIRTUAIS
 

 

MOEDAS

Jacy de Souza Mendonça


Cresce no Brasil a circulação de moedas virtuais. Calcula-se esse movimento em R$30 milhões por dia de bitcoins e, contando outras moedas, como o litecoin e o ethereum, pode-se chegar a R$50 milhões.

Em comunicado oficial, o Banco Central do Brasil vem de advertir que tais moedas embutem grave risco, pois não têm nenhuma garantia e seu valor decorre exclusivamente da confiança no emissor.

Esta preocupação do Banco Central não faz o menor sentido, pois toda a moeda circulante no mundo pende exclusivamente da confiança do usuário em seu emissor. É sempre risco. Nem o fato hoje preponderante segundo o qual os governos são os emissores é tranquilizante, principalmente para nós, cujo governo, em época não muito remota, já desvalorizou a moeda várias vezes. Em um dia tínhamos 100 (cruzeiros, cruzeiros novos ou cruzados) e, no dia seguinte, tínhamos 1 ou até menos, apenas com outro nome.

Por natureza, toda moeda depende só e exclusivamente da confiança em seu emissor. Moeda não passa de um papel ou pedaço de metal no qual se confia, em razão da confiança que se deposita em seu emissor. É uma promessa de pagamento. No passado, o escambo foi substituído inicialmente por moedas com valor intrínseco, mas, pouco depois, por símbolos de garantia para a troca, como um fragmento do couro da rês, revestidos de confiabilidade.

Em 1519, o Conde Stephan Schlick, habitante do vilarejo Jáchymov, na Boêmia, cunhou moedas (groschem) com a prata de sua mina, que passaram a servir em grande número de trocas, por seu valor intrínseco. Jáchymov situava-se em um vale (thal) conhecido como Joachimsthal, por isso essas moedas eram conhecidas como Joaachimsthalergroschem. As dificuldades na pronúncia desse palavrão levaram a reduzi-lo apenas a thaler (vale). Com o tempo, o tha- foi se transformando em tó-, e depois em dó- e o –ler final passou a ser pronunciado, como é frequente no alemão, como –lar. Assim chegamos à palavra dólar, utilizada ainda hoje em muitos países. O nome evoluiu, mas a natureza da moeda não. Se no início ela valia a prata de que era feita, em seguida, seu valor ficou na dependência da garantia que lhe emprestavam o Conde e sua mina de prata. Da mesma forma, hoje, as moedas valem apenas por serem mais ou menos garantidas pelo governo dos países que as emitem, os quais, diga-se de passagem,
nem sempre têm suficientes fundos garantidores.

O que não muda é que toda moeda é essencialmente apenas uma promessa na qual acreditamos até sermos forçados pelas circunstâncias a desacreditar.

As moedas virtuais, como o bitcon, só diferem das reais, portanto, pelo fato de não serem garantidas pelos governantes e sim por algumas pessoas ou intituições, como no tempo do Conde Schlick. Quem nelas acredita, quem aposta em seu emissor, pode usá-las, como ocorria no passado.