DESTRUIÇÃO EM NOME DA EMANCIPAÇÃO
 

 

A destruição em nome da emancipação: Simone de Beauvoir e Judith Butler

Ricardo Gustavo Garcia de Mello

A destruição da ordem natural binária do sexo, homem e mulher é, em grande parte, produto de manifestações mórbidas na psique ou alma que são provocadas por ideias. E o estudo destas ideias-força, a ideogênese, é importante para compreender o impacto ou as consequências de certas ideias no pensamento e ação humana. Simone de Beauvoir (1908-1986) e Judith Butler (1956) são as genitoras notáveis das ideias que subverteram o nexo natural entre o gênero – homem e mulher o corpo – sexo masculino e feminino e o desejo sexual – ter atração por homem ou mulher.

Para Beauvoir e Butler, é um erro e engodo buscar a igualdade jurídico-política entre homens, mulheres e homossexuais, ou o reconhecimento da pessoa humana em todos os indivíduos, independendo do seu sexo ou cor. É este compromisso humanista que aliena as mulheres e homossexuais, os impedindo de buscar o poder. A luta pela igualdade jurídico-política ou humanista, serve para aliviar a tensão e conciliar as diferenças de modo pacífico, alienando a mulher e o homossexual na humanidade ou essência humana que foi criada pelo homem branco, machista e ocidentalista que conseguiu expandir o seu império através da alienação dos indivíduos de diversas culturas e territórios, em torno do ideal de humanidade ou natureza, uma das ideologias imperialistas.

Beauvoir e Judith Butler, não desconstroem apenas os aspectos socioculturais de gênero, a masculinidade e a feminilidade. Elas também destroem a própria ordem natural binária do ser humano, homem e mulher, alegando defender as mulheres e os oprimidos.

O raciocínio de Beauvoir e Butler leva à extremidade lógica o próprio relativismo. No “relativismo moderado” existe uma simetria entre todas as culturas, mas continua a existir a mesma natureza humana por debaixo das diferentes roupagens culturais. Já as ideias de Beauvoir e Butler radicalizam o próprio relativismo, não existe uma mesma natureza humana por debaixo das diferentes roupagens sociais e culturais -  a própria natureza humana, é uma roupagem sociocultural.

A concepção de uma ordem natural binária e complementar, homem e mulher, é tomado pelos destrutivistas ou relativistas radicais. Como uma forma de naturalizar as desigualdades socioculturalmente construídas. E só a negação de toda concepção de ordem natural e verdade, pode trazer uma liberdade radical para os indivíduos. Eu considero que a negação da ordem natural ou da verdade, não liberta os indivíduos, mas antes os torna vulneráveis às arbitrariedades.
As categorias, homem e mulher, existem apenas para reprimir certos indivíduos, e “empoderar” outros.

Simone de Beauvoir (1908-1986), pensadora existencialista francesa que influenciou e foi influenciada por Jean-Paul Sartre. É em termos teóricos, a inauguradora da tradição existencialista feminista. A obra Segunda Sexo (1949) com cerca de mil página, em dois volumes – fatos e mitos (v.1) e a experiência vivida (v.2). Afirma que não existe natureza feminina, esta é a existência numa dada sociedade e cultura que confere à existência daqueles indivíduos o sentido de serem de um sexo inferior, o segundo sexo – a mulher-fêmea, que está abaixo do sexo superior, o primeiro sexo – o homem-macho.

"Sem dúvida, a teoria do eterno feminino ainda tem  adeptos [...] Todo  ser humano  do  sexo  feminino  não  é,  portanto,  necessariamente  mulher  cumpre-lhe  participar  dessa  realidade  misteriosa  e  ameaçada que  é  a  feminilidade. [...] No  tempo  de  Sto.  Tomás, ela se  apresentava  como  uma  essência tão  precisamente  definida  quanto  a  virtude  dormitiva  da  papoula. Mas o  conceitualismo  perdeu  terreno:  as  ciências  biológicas  e  sociais  não  acreditam  mais  na  existência  de  entidades  imutavelmente  fixadas...”[BEAUVOIR, 1970, v.1, p.7-8]

O existencialismo feminista de Beauvoir, já afirmava aquilo que Judith Butler irá trabalhar em suas obras - que não existe a mulher como uma entidade imutavelmente fixada pela sociedade ou pela biologia, ou seja, não existe natureza feminina.

“Quando emprego as  palavras  "mulher"  ou  "feminino"  não  me  refiro  evidentemente  a  nenhum  arquétipo,  a  nenhuma  essência  imutável [...]”  [BEAUVOIR, 1967, v.2, p.7]

Para Beauvoir, não existe uma essência particular da mulher ou natureza feminina. Não existe essência, tudo é mutável e relativo de acordo com a circunstância tempo-espaço, e situação social.
 

“Ninguém  nasce  mulher:  torna-se  mulher.  Nenhum destino biológico,  psíquico,  econômico  define  a  forma  que  a  fêmea humana  assume  no  seio  da  sociedade  é  o  conjunto  da  civilização que elabora  esse produto  intermediário  entre  o  macho  e o  castrado que  qualificam de  feminino.  Somente  a  mediação  de  outrem  pode constituir  um indivíduo  como  um  Outro.  Enquanto  existe para  si, a  criança  não  pode  apreender-se  como  sexualmente  diferençada.” [BEAVOUIR, 1967, v.2, p.8]

Se ninguém nasce mulher, mas se torna mulher. O gênero, o desejo sexual e até o corpo da mulher são constructos socioculturais, que foram internalizados subconscientemente pelos indivíduos como um dado natural. 
“[...] é preciso  sublinhar  mais  uma  vez  que  as  mulheres nunca constituíram  uma  sociedade  autônoma  e  fechada  estão  integradas  na  coletividade  governada  pelos  homens  e  na  qual  ocupam um lugar  de  subordinadas ...” [BEAUVOIR, 1967, vol.2, p.363]

É necessário que as mulheres não aceitem a relação homem e mulher como uma relação de complementariedade necessária ou alma gêmea.  As mulheres devem realizar uma ruptura radical com a relação homem-mulher, e estruturar relações entre mulheres, no amplo sentido do termo.

“A  própria  mulher  reconhece  que  o  universo  em  seu  conjunto  é  masculino  os  homens  modelaram-no,  dirigiram-no  e  ainda  hoje  o  dominam  ela  não  se  considera  responsável  está entendido  que  é  inferior,  dependente  não  aprendeu  as  lições  da  violência,  nunca  emergiu,  como  um  sujeito,  em  face  dos  outros  membros  da  coletividade  fechada  em  sua  carne,  em  sua  casa, apreende-se  como  passiva  em  face  desses  deuses  de  figura  humana  que  definem  fins  e  valores. [BEAUVOIR, 1967, vol.2, p.364]

A própria ordem natural binária, homem e mulher, é uma construção ideológica que naturaliza relações desiguais de poder – a mulher é uma construção ideológica do patriarcado. 

“O  quinhão da  mulher  é  a  obediência  e  o  respeito.  Ela  não  tem  domínio, nem  sequer  em  pensamento,  sobre  essa  realidade  que  a  cerca.” [BEAUVOIR, 1967, vol.2.p.364]

Para Beauvoir, a mulher só vai se emancipar no momento que romper os seus vínculos materiais e psicológicos com a figura do homem. E fazer da ingratidão e do desprezo, uma forma de luta contra a cordialidade feminina criada pelo patriarcado, com o objetivo de tornar as mulheres servis e dóceis.

“[...] ensinaram-lhe  a  aceitar  a  autoridade  masculina  renuncia  pois  a  criticar,  a  examinar,  a  julgar  por sua conta.  Confia  na  casta superior.  Eis por  que  o  mundo  masculino se  apresenta  a  ela  como  uma  realidade  transcendente,  um  absoluto.  “Os  homens  fazem  os  deuses,  diz  Frazer,  as  mulheres  adoram-nos”.[BEAUVOIR, 1967, v.2,   p.366]

O homem-macho é o criador do universo, tudo que existe foi inventado por homens, o universo será sempre masculino. Por isto, é necessária uma revolução radical em todas dimensões da vida econômica, política, intelectual e sexual.
Judith Butler (1956), em sua obra Problema de gênero: feminismo e subversão da identidade (1990). Explicita e reforça a necessidade de destruir o nexo natural entre corpo, gênero e desejo sexual, para afirmar que o gênero, o desejo sexual, e até o corpo são constructos socioculturais, que foram internalizados subconscientemente pelos indivíduos como um dado natural.

“Resulta daí que o gênero não está para a cultura como o sexo para a natureza ele também é o meio discursivo/cultural pelo qual “a natureza sexuada” ou “um sexo natural” é produzido e estabelecido como “pré-discursivo“, anterior à cultura, uma superfície politicamente neutra sobre a qual age a cultura.” [BUTLER, 2003, p.25]

A própria Butler reconhece que Simone de Beauvoir é a sua fonte, por considerar não só o gênero e o desejo sexual, mas o corpo masculino e feminino como uma construção sociocultural.

“Beauvoir diz claramente que a gente “se torna” mulher, mas sempre sob uma compulsão cultural a fazê-lo. E tal compulsão claramente não vem do “sexo” Não há nada em sua explicação que garante que o “ser” que se torna mulher seja necessariamente fêmea. Se, como afirma ela, “o corpo é uma situação”, não há como recorrer a um corpo que já não tenha sido sempre interpretado por meio de significados culturais...” [BUTLER, 2003, p.27]

Judith Butler, em seu artigo, Corpos que pensam: sobre os limites discursivos do “sexo”, ela explica que o “sexo” como algo natural, sexualidade masculina e feminina, não existe, é pura construção.

“A categoria do “sexo” é, desde o início normativa: ela é aquilo que Foucault chamou de “ideal regulatório”. Nesse sentido, pois, o “sexo” não apenas funciona como uma norma, mas é parte de uma prática regulatória que produz os corpos que governa, isto é, toda força regulatória manifesta-se como uma espécie de poder produtivo, o poder de produzir – demarcar, fazer, circular, diferenciar – o corpos que ela controla.” [BUTLER, 1999, p.153-4]

O “sexo” em Butler é uma forma de exercício de poder – o governo dos corpos e sua demarcação.

“Assim, o “sexo” é um ideal regulatório cuja materialização é imposta: esta materialização ocorre ( ou deixa de ocorrer) através de certas práticas altamente reguladas. Em outras palavras, o “sexo” é um construto ideal que é forçosamente materializado através do tempo.” [BUTLER, 1999, p.154]

O sexo não é um dado da dualidade da natureza humana, mas um constructo, ou seja, uma construção ideal que é autoritariamente internalizado pelos indivíduos como algo natural.
Butler, no seu artigo desdiagnosticando gênero (2004) “O sexo se torna compreensível por meio dos signos que indicam como ele deveria ser lido e compreendido. Esses indicadores corporais são os meios culturais através dos quais o corpo sexuado é lido. Eles próprios são corporais e funcionam como signos assim, não há nenhum caminho fácil para distinguir entre o que é “materialmente” verdadeiro e o que é “culturalmente” verdadeiro a respeito de um corpo sexuado.” [BUTLER, 2009, p.108]

O Sexo masculino e feminino são formas pelas quais as relações sociais, numa determinada cultura codificam os corpos dos indivíduos através de práticas, e discursos. 

E, além disto Butler crítica a concepção de natureza humana ou humanismo. A concepção de humanidade universal que contempla todas as pessoas, é um engodo ideológico concebido pelo homem branco, sexista, burguês, racista e imperialista. Para amortecer os conflitos, e alienar os diferentes em torna de uma luta pelo reconhecimento da humanidade, que só reforça o poder branco, macho, burguês e eurocêntrico. O pensamento de Butler tem por base exacerbar as diferenças e contradições, até se tornarem inconciliáveis e antagônicas. O homem universal, o indivíduo livre, o cidadão nacional, etc., são produções políticas de certas ideologias que excluem a diversidade, e ocultam os conflitos. O humanismo significa a alienação das diferenças pelos Universais. Não existe natureza humana, que transcende as diferentes circunstâncias tempo-espaço, e diferenças socioculturais.

A Natureza humana, e a sua divisão natural binária ou a heteronormatividade. São construções ideológicas dos poderosos.  Que só podem ser subvertidas por elementos que superem o próprio binarismo, homem e mulher, uma etapa superior do feminismo, ou seja, a politização do transgênero como agente da subversão.  A subversão radical da ordem, a verdadeira revolução, depende da desnaturalização da dualidade sexual humana, homem e mulher. 

Os indivíduos só serão livres, segundo Beauvoir e Butler, quando os seus corpos poderem adquirir configurações autônomas, e para tal é necessário destruir as relações sociais e discursos que preservam a ordem natural binária, homem e mulher.

Fontes bibliográficas
BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo: fatos e mitos.v.1, São Paulo: Difusão Européia do Livro (DIFEL) ,1970
BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo: a experiência vivida.v.2, São Paulo: Difusão Européia do Livro (DIFEL), 1967.
BUTLER, Judith. Corpos que pesam: sobre os limites discursivos do “sexo”. In: LOURO, Guacira Lopes (org.). O corpo educado: pedagogias da sexualidade. Belo Horizonte: Autêntica,1999. p. 151-172.
BUTLER, Judith.  Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
BUTLER, Judith. Desdiagnosticando o gênero. Physis, Rio de Janeiro ,  v. 19, n. 1, p. 95-126,  2009.