COLOMBIA: DEFENSORES DAS FARC QUEREM MUDAR A DOUTRINA MILITAR

 

Mudar a doutrina militar colombiana?


Eduardo Mackenzie


"É necessário fazer reformas no aparato militar", propôs Luis Alfonso Castillo, membro de uma associação, a Corporação Jurídica Liberdade, durante um recente diálogo no programa "A noite nos pegou", do canal de televisão digital Cosmovisión.


A tertúlia girava em torno da JEP e de sua absurda pretensão de julgar os militares, como se o Estado colombiano tivesse sido vencido pelas FARC em uma guerra civil. De imediato, Castillo se afastou do tema e propôs que não se mudasse a atual cúpula militar. Ele sugeriu que o governo do presidente Iván Duque deve, melhor, mudar a "doutrina militar". Nada mais e nada menos.


Por que razão? Porque a doutrina militar, explicou Castillo, representa "o passado", é uma doutrina errada e até criminosa. Castillo a descreveu assim: essa doutrina consiste em "disparar primeiro e perguntar depois" e colocar em um saco os terroristas do ELN com suas vítimas, os camponeses colombianos


Castillo teorizou: essa doutrina militar é a "do inimigo interno". Devemos por isso passar para outra doutrina militar, a uma que "não considere que [na Colômbia] há um inimigo interno".


Não sabemos se tal confusão foi controvertida pelos outros participantes.


Em que país vive Luis Alfonso Castillo? Não há um inimigo interno na Colômbia? Notemos um detalhe: Castillo disse isso no passado 17 ou 18 de setembro. Na véspera, a imprensa havia revelado que as Forças Especiais da Colômbia haviam ferido Walter Arizala, vulgo Guacho, com dois tiros em um local selvático, um chefe das FARC expert em explosivos e narcotráfico que semeou o terror no sul do país. O governo não disse se Guacho escapou ou morreu nesse combate. O certo é que o chefe da Frente Oliver Sinisterra (FOS), também conhecida como Guerrilhas Unidas do Sul (GUS), bando que trabalha com os cartéis mexicanos do narcotráfico, conta com uns 450 homens, quase todos ex-membros da Frente 29 das FARC e das colunas móveis "Daniel Aldana" e "Mariscal Sucre". Guacho foi quem ordenou o assassinato de três jornalistas do diário El Comercio, do Equador.


Nove dias antes, o Exército colombiano havia abatido outro criminoso. "David", chefe das chamadas Guerrilhas Unidas do Pacífico (GUP), outra facção "dissidente" das FARC, tinha 16 anos de clandestinidade nas costas. Era membro da frente 29 das FARC e disputava com Guacho, a bala, o território e os tráficos ilegais do sul da Colômbia.


Essas duas ações das Forças do Estado contra tais malfeitores são as que Castillo quer insultar com sua insinuação de que eram injustificadas, pois já não há "inimigos internos" na Colômbia?


Castillo repete o velho refrão das FARC e de seus idiotas úteis: que o Estado deve ser deslegitimado, culpabilizado e paralisado para que a subversão armada, o narco-comunismo, possa crescer e tomar o poder por qualquer meio.


É necessário "mudar a doutrina militar" para que a opinião pública e a própria força pública acabem por não ver esses cabeças e esses bandos como "inimigos internos", senão como leais "opositores políticos" e "defensores de direitos humanos". Quer dizer, para que os deixem continuar devastando e martirizando a Colômbia, como fazem desde os anos 1950.


A doutrina da segurança nacional, onde a noção de inimigo interno tem um papel, foi uma resposta legítima ante a ofensiva comunista internacional durante a Guerra Fria. Essa doutrina impediu que o continente latino-americano caísse nas mãos do castro-sovietismo mediante a luta armada em quatro décadas, dos anos 1970 a 1990.


O velho sofisma de que já não há "inimigo interno" foi tirado da gaveta pelos comunistas enrustidos em setembro de 2015. Em um foro em Bogotá, ao qual assistiram altos comandos das Forças Armadas, disseram que havia que "reformar a doutrina militar", pois após a assinatura de paz não haveria "inimigo interno". E que as "funções dos uniformizados deveriam mudar". Era o tempo das promessas exaltadas em matéria de paz. Já vimos em que deu tudo isso. A idéia foi rechaçada, nesse momento, até por Humberto de la Calle. A senadora Paola Holguín, do Centro Democrático, disse: "Espero que a transformação da doutrina não seja por imposição de uma organização narcotraficante e guerrilheira". O que indica que uma mudança da doutrina militar é possível em outras condições. Me equivoco? Foi só uma má formulação?


A Colômbia continua sob a ação de "inimigos internos" e externos, pois o Foro de São Paulo dirige a ofensiva global e até tratou de assassinar seu adversário no Brasil, o candidato conservador Jair Bolsonaro. Para pôr fim a isso, é necessário dotar as Forças de Defesa e de Polícia da Colômbia de linhas e perspectivas claras. Não mais desmantelamento destas forças, não mais atrocidades.


A ameaça é palpável. Uma vintena de chefes e sub-chefes das FARC fugiram com gente armada dos acampamentos "de paz" ao ver que Gustavo Petro não ganhava a presidência. Porém, conservaram o poder dentro do aparato judicial. As misteriosas "dissidências das FARC' conservam uma capacidade destrutiva considerável. E estão na ofensiva. Chamá-los de "grupos residuais" não os aplacará. E, como se viu em Yarumal, onde três jovens geólogos colombianos foram massacrados, grupos das FARC que haviam assinado "a paz" uniram-se ao ELN para matar colombianos com o pretexto de que o governo "não está cumprindo o que lhes prometeu". Haja ou não morrido Guacho, o FOS e o GUP continuam explorando os ripados ilegais do sul da Colômbia onde atuam camponeses cocaleros, narcos locais e agentes de cartéis estrangeiros de todo tipo.


Há alguns dias, um jornalista do Washington Post, Douglas Farah, ex-correspondente na Colômbia e especializado em questões de terrorismo, dizia isto: "Estou seguro de que um grupo pequeno mas importante das FARC vai se manter em armas e no narcotráfico, e em todos os ilícitos que tinham montado até agora. Há cinco comandantes que saíram em dezembro do ano pasado, cinco cabeças que com 500, 600 homens podem se tornar muito fortes. Eu acredito que eles não se separaram totalmente do secretariado das FARC que assinou a paz. Eles vão entrar no jogo político, mas com um estilo, uma visão chavista da tomada do poder e desde aí acabar com as eleições democráticas para impor o modelo bolivariano ao estilo Ortega, Chávez (&hellip)".


Mudar a doutrina militar colombiana nessas condições? O governo de Iván Duque tem a palavra.


 


Tradução: Graça Salgueiro